Luís Jardim saiu da Madeira para crescer no mundo da música. A aposta foi certeira. Além de músico de reconhecidos méritos entre os grandes, manteve negócios de produção nos mais variados quadrantes musicais. Viveu e teve estúdios em Londres, mas o seu trabalho não tinha fronteiras. Tanto estava em Espanha, Portugal, Itália, ou Estados Unidos da América.
Hoje, sexta-feira, dia em completava 75 anos, mundo da música fica mais pobre com o seu falecimento.
por:
Paulo Camacho
Luís Jardim estudou em várias escolas do Funchal, como o Externato Nun’Álvares, também conhecido por “Caroço”, e o Lisbonense e é um aluno médio.
Era filho de um médico, que também tocava muito bem guitarra e um dos fundadores da tuna académica de Coimbra. O pai tocava e escrevia músicas. Por isso, cresceu a meio de guitarras, as quais não tocou até o pai falecer, quando tinha 9 anos. É a partir dessa altura que despertou para a música. Até os últimos dias da sua vida.
Durante a juventude criou uma banda naqueles loucos anos 60. Chamava-se "Demónios Negros" e tocava música “pop”.
Entre uma das várias vezes que foi a Lisboa, tocou num concurso, o “Ié-Ié”. A banda de Luís Jardim ganhou mais visibilidade.
Nessa altura, o madeirense tinha a noção do seu valor e, a continuar na Madeira, acabaria a animar as noites num hotel.
Inicialmente alimentou o desejo de ir para os Estados Unidos da América. Mas tem dificuldade em conseguir o cartão de trabalho que lhe abria as portas do país. Estava com 16 anos.
Viagem para Londres
Vira-se então para uma alternativa: Londres. Algum tempo depois estava na capital de Inglaterra a aprender inglês e a pensar estudar, talvez Direito, para regressar à Madeira para os negócios de família.
Inicialmente fez um curso de Inglês.
Contudo, levava na bagagem uma ideia encoberta que, na prática, era o principal motivo da opção por estudar em Londres: entrar no mundo da música. «Queria era tocar», confidencia a Biografias da Madeira.
Estávamos em 1967. Luís Jardim começou a tocar um ano depois.
Evolui na música, que estuda, e aprende os segredos das gravações.
A Banda Rouge
Entre 1973 e 1977, tem uma banda em Inglaterra: “Rouge”. Com ela chegou a vender cerca de 4 milhões de discos.
O último álbum que faz para para a CBS, que era a Sony anteriormente, foi editado em 1981.
Embora só após deixar a banda se intensifique mais, a verdade é que, mesmo durante o tempo em que tocava com o grupo, já acompanhava os grandes músicos do Mundo para fazerem os seus discos. Existiam concertos onde era abordado diretamente para trabalhar nos álbuns de diferentes cantores.
O peso das influências
As suas influências musicais, com fortes traços brasileiros e americanos, como o “soul” e o “jazz”, fazem com que Luís Jardim surja na cosmopolita cidade londrina com caraterísticas que não existiam.
Além disso, a sua maneira de tocar e forma de pensar muito latina introduziram uma onda inovadora em Inglaterra. Permitem-lhe, igualmente, a abertura de portas para produzir discos e realizar “tournées” com cantores que nos habituámos a conhecer dos tops internacionais.
A promoção “Boca-orelha” deu provas de ser um dos melhores meios de fazer chegar longe o seu valor. Aos poucos, começam a descobrir no madeirense Luís Jardim o seu grande potencial, que aliava a trabalhar bem e depressa.
Entre os muitos nomes com quem trabalhou, sobressaem Tom Jones, Leo Sayer, David Bowie e Rolling Stones. A ligação começou em 1969. Eram cada vez mais familiares para o músico, que um dia decidiu deixar a Madeira à procura de um mundo grande, à medida da sua ambição.
Os nomes sonantes
Depois dos primeiros trabalhos com os grandes, a presença de Jardim com nomes sonantes no mundo da música nunca mais pára.
Nunca trabalha em exclusivo para ninguém, com algumas exceções periódicas, como aconteceu com “tournées” de um ano com Tina Turner, George Michael, Rod Stewart, entre outros.
Tocava vários instrumentos, sendo que os que mais gostava e que o tornaram mais conhecido foram a bateria, o baixo, a percussão e as guitarras. Mas tocava um pouco de tudo.
Quando deixou a banda inglesa, estudou nos EUA, no Colégio de Barkley.
A vida empresarial
A entrada no mundo empresarial da produção começou cedo, com uma experiência, a convite de um dos grandes produtores do mundo, Trever Hom, com quem chegou a tocar na sua banda.
Um dia, este produtor, dono da companhia de discos ZTT, convidou-o para produzir uma das músicas dos Frankie Goes to Hollywood, para o qual estava a fazer um álbum. Por sinal, um dos grandes sucessos do grupo, “Relax”.
Ainda com essa empresa, trabalhou com mais 4 ou 5 artistas, entre os quais Grace Jones.
Foi produtor, mas não era o que mais gosta de fazer.
Gostava de ser músico, criador de músicas e compositor.
Não se arrepende
Trabalhou com Robbie Williams. Fez alguns concertos em Inglaterra e pequenas “tournées”. Quando o convidou para fazer a “tournée” de um ano, que arrancou em Lisboa, Luís Jardim declina. Disse que já não tinha idade para isso.
Refira-se que Luís Jardim já trabalhava com o cantor desde o tempo dos Take That, a “boysband” onde Robbie começou a dar os primeiros passos na música.
Quando o entrevistamos na sua casa, em Lisboa, dizia claramente que não se arrependeu minimamente de o ter feito.
Continuou a fazer um pouco de tudo: tocar, compor e produzir no seu próprio estúdio em Londres, o “Rouge Recording Studio”. Além disso, tinha uma companhia de produção, porque, como dizia, «não gosta de colocar os ovos no mesmo cesto».
Os “Ídolos”
Mais tarde, foi convidado para presidir aos júris do programa de televisão “Ídolos”, em Portugal, que o prendeu ao seu país por uma temporada. Contudo, durante todo este período que estava “preso” a Portugal, ia frequentemente a Londres e a outros locais realizar trabalhos, para os quais também tinha convites para concretizar com artistas portugueses.
Durante a sua carreira, Luís Jardim já foi co-autor com Hans Zimmer e Mick Jagger e gravou com Michael Kamen, John Barry, George Fenton, Chris Gunning, John Duprez, Craig Armstrong, Luis Enriquez Bacalov e Stephen Endelman, entre outros.
Luís Jardim dizia que continuava amigo de quase todos os músicos com quem trabalhou, principalmente dos que conhece há mais tempo, como aconteceu com os Rolling Stones.
Teve uma vida baseada numa das mais cosmopolitas cidades do Mundo.
Admitia voltar à Madeira quando deixasse a atividade, porque dizia não conseguir fazer a sua carreira a partir da Madeira.
Uma atividade que o levou a deixar pouco tempo em Londres. Uma boa parte foi feita em estúdios nos EUA, na Holanda e na Bélgica, em Espanha e Itália.
Por isso, não tinha horários, nem fins-de-semana. Quando havia trabalho, tinha de o fazer. Sublinhava que «não se pode planear a música».
Tinha “hobbies”, embora dissesse que não tinha tempo para fazer quase nenhum. Gostava de futebol. Mas raramente ia ao estádio. Também gostava de ténis.
Normalmente, nadava, uma/duas vezes por semana, em Inglaterra. Considerava que um ilhéu dificilmente podia deixar de nadar.
Também andava nos cavalos na casa que tinha na Grécia, de onde é natural a sua esposa. Na família todos fazem equitação. Reconheceu que não era a sua especialidade, mas gostava de andar a cavalo.
Costumava concretizar este “hobby” quando ia de férias no mês que gosta de fazer naquele país.
Também procurava vir à Madeira, uma a duas vezes por ano.
Gostava de ler, leituras de temas verdadeiros. Lia meio livro por dia antes de dormir. Aí umas 100/150 páginas.
Gostava igualmente de cinema.
Pensar em inglês
Luís Jardim pensava em inglês. Tinha muito mais anos de Inglaterra do que de Madeira.
Contudo, sublinhava que mantém passaporte português e considerava-se um patriota.
Sobre algumas críticas que o apontavam como um duro no “Ídolos”, dizia que era tudo uma questão de mentalidade. Recordava que, em Inglaterra, as crianças começavam a aprender música na escola. E, quando alguma não tinha queda para tal, os professores dizem diretamente que aquele não é o seu caminho logo no primeiro ano. Apontam muitos outros a seguir.
Com quem já trabalhou
Artistas
Paul McCartney, David Bowie, Tina Turner, Mick Jagger, Brian Ferry, Steve Winwood, Elvis Costello, Seal, Cher, Grace Jones, Annie Lennox, Björk, James Brown, Ray Charles, Goldie, Tom Jones, Errol Brown, Olita Adams, Eric Clapton, Gary Barlow, Tanita Tikaram, Mark Morrison, Yazz, Adamski, Terence Trent D’Arby, Claire Martin, Michael Crawford, Elaine Page, Sam Brown, Allison Moyet, Andrea Adams, Robbie Williams, Gareth Gates, Gwen Stefani, entre outros.
Bandas
Rolling Stones, Tears For Fears, Madness, Bush, Lighthouse Family, Simply Red, Boyzone, Wet Wet Wet, Soul II Soul, The Bee Gees, Prefab Sprout, Simple Minds, The Pretenders, Frankie Goes To Hollywood, East 17, T’Pau, Steps, The Pasadenas, ABC, Pearl, Catatonia, Flowered Up, James Taylor Quartet, The Art Of Noise, The Orb, Was not Was, Massive Attack, Incognito, Symposium, Asia, The Silencers, The Charlie Watts Tentet, Shalamar, Duran Duran, entre outros.
Artistas estrangeiros
Angelique Kidjo, Cheb Mami, Kadja Nin, Mauranne, Axelle Red, Francis Gabrel, Alejandro Sanz, Presuntos Implicados, Meccano, Salif Keifa, Johnny Kleg, Mori Kante, Nina Hagan, Rui Veloso, João Pedro Pais, ACA, Baaba Maal, Filipa Giordano, Eros Ramazzoti, entre outros.
Produtores
Trevor Horn, Steve Lipson, Nellee Hooper, George Martin, Chris Neal, Langer /Winstanley, Steve Lillywhite, Don Was, Phil Ramone, Howie B, Rolo, John Kelly, Paul O’Duff y, entre outros.
Director musical de:
Diana Ross, Mariah Carey, Celine Dion, Elton John, Julio Iglesias, Tom Jones, James Ingram, Al Jarreau, Luther Vandross, Cindy Lauper, Michael Bolton, Darryl Hall, Gloria Estefan, Barry Manilow, Michael Jackson, entre outros.
Produção e misturas
Glass (RCA), Anne Pigalle (ZTT), Jai Wolf (EMI), Bruno (EMI), Prince Hoenloe (Polygram), Rouge (Sony), Amazonia (Polygram), Instinct (ZTT), Sandy Reed (WD), Dannii Minogue (WD), Gerry True (DJM), Ana (Polygram), Frankie Goes To Hollywood (ZTT), entre outros.
Produção de bandas sonoras de filmes
“A Fish Called Wanda”, “Rain Man”, “Thelma & Louise”, “Bird on a Wire”, “Beyond Rangoon”, “Don Juan deMarco”, “Running Out of Luck”, “Woman on Top”, “Gladiator”, “The Four Feathers”, “The Bone Collector”, “The Chicken Run”, “Crimson Tide”, “El Dorado”, entre outros.
A Tuna Académica de Coimbra foi fundada no ano de 1888 e a ela pertenceram várias gerações de estudantes da Universidade de Coimbra entre os quais cito os cantores Luís Goes, José Afonso e João Barros Madeira.
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